Os Seis Graus de Conexão (aplicados ao futebol)
Quantas pessoas estão separando você de quem mais pode te ajudar neste momento?
Nos anos 90, o ator americano Kevin Bacon deu nome a uma curiosa teoria sociológica conhecida como The Six Degrees of Kevin Bacon¹. A ideia, originalmente uma brincadeira entre fãs de cinema, surgiu a partir de um jogo criado por três estudantes universitários que defendiam que qualquer ator de Hollywood poderia ser conectado a Kevin Bacon por, no máximo, seis intermediários — usando como referência os filmes em que cada um havia atuado. Essa hipótese é uma aplicação lúdica do conceito mais amplo da teoria dos seis graus de separação, formulada por Frigyes Karinthy em 1929 e popularizada pelo psicólogo social Stanley Milgram em seu experimento de 1967 sobre redes de contatos. O raciocínio por trás da teoria é simples: vivemos em um mundo altamente interconectado, onde cadeias curtas de relações humanas bastam para ligar duas pessoas quaisquer no planeta.
É provável que muitos dos leitores não conheçam Bacon ou mesmo tenham visto um de seus filmes. Sem dúvidas, ele não é um dos atores mais conhecidos no cinema mundial. Ainda assim, seu nome virou símbolo dessa teoria porque sua carreira foi marcada por uma presença camaleônica em Hollywood: Bacon transitou por múltiplos gêneros e trabalhou com uma variedade incomum de atores, diretores e equipes técnicas, criando uma rede de conexões muito diversa — algo fundamental para que seu “grau de separação” médio fosse tão baixo.
Uma conexão de primeiro grau na escala de Kevin Bacon é aquela em que a pessoa está diretamente ligada ao ator — por exemplo, atuaram juntos no mesmo filme ou dividiram uma cena.
Uma conexão de segundo grau é quando a pessoa não trabalhou diretamente com Bacon, mas trabalhou com alguém que trabalhou com ele.
O raciocínio segue até a conexão de sexto grau, quando a relação é construída por uma cadeia de seis intermediários sucessivos. Nesse ponto, duas pessoas aparentemente distantes — sem qualquer relação direta visível — acabam conectadas por um número surpreendentemente pequeno de passos.
Os Seis Graus aplicados ao futebol
Transportando esse princípio para o futebol, podemos dizer que o goleiro Fábio, do Fluminense, dispõe de um network vasto e qualitativamente concentrado. Isso se deve a uma carreira iniciada ainda no século XX, sempre em clubes de ponta como Cruzeiro e Fluminense. Suas conexões *tendem* a ser altamente horizontais, ou seja, diretamente ligadas a atletas, treinadores e dirigentes de elite, mas com menor penetração vertical em redes de clubes de menor expressão. Essa estrutura se assemelha ao conceito de hub nas redes complexas — um nó altamente conectado que centraliza relações relevantes, mas cuja influência é mais concentrada em um segmento específico.
Buscando um exemplo menos midiático, na Série B do Campeonato Brasileiro encontramos o zagueiro Ronaldo Alves, que desde 2023 defende a Ferroviária de Araraquara. Aos 36 anos, já atuou por clubes em cinco estados, abrangendo três regiões do país, e competiu nas Séries A, B, C e D. Diferente do modelo de rede de Fábio, a de Ronaldo Alves tende a apresentar maior diversidade geográfica e de níveis competitivos. Esse tipo de trajetória tende a formar um network de múltiplos estratos, conectando desde atletas de elite até jogadores e dirigentes de divisões inferiores. Aqui, o padrão se aproxima mais de uma rede small-world: apesar da aparente distância entre certos segmentos (por exemplo, um dirigente de Série D e um técnico de Série A), a presença de “pontes” como Ronaldo Alves encurta o caminho entre esses mundos, permitindo que informações, oportunidades e influências circulem com mais rapidez e amplitude.
Seja na figura de um hub de elite como Fábio ou de um conector multi-estratos como Ronaldo Alves, a lógica dos “graus de separação” ajuda a entender como trajetórias individuais podem moldar ecossistemas inteiros. E, assim como jogadores constroem redes de contatos capazes de alterar fluxos de informação e oportunidade, treinadores, dirigentes e até políticas institucionais também desempenham papel decisivo na arquitetura dessas conexões. Nos últimos 25 anos, alguns casos emblemáticos ilustram como uma única decisão — a contratação de um técnico, a compra de um clube ou a mudança de uma regra — foi suficiente para reconfigurar o mapa relacional do futebol global.
Arsène Wenger e a ponte França-Inglaterra (1996)
Quando Arsène Wenger assumiu o Arsenal em 1996, não era um nome central no futebol inglês — tampouco parecia um hub óbvio. Porém, sua chegada funcionou como a instalação de uma “ponte” em uma small-world network: encurtou a distância entre a Premier League e ecossistemas até então pouco explorados, como o mercado francês, a escola japonesa de preparação física e métodos de nutrição e análise de desempenho incomuns na Inglaterra. Ao importar jogadores como Patrick Vieira, Emmanuel Petit e Thierry Henry, Wenger criou conexões duradouras que se multiplicaram dentro do clube e se espalharam pela liga. O impacto foi mais do que técnico: alterou padrões de contratação, acelerou a circulação de ideias e consolidou um novo eixo de relacionamento entre a Premier League e a Europa continental, encurtando drasticamente os “graus de separação” entre talentos franceses e o futebol inglês.
O Manchester City como super-hub global (2008)
A aquisição do Manchester City pelo Abu Dhabi United Group, em 2008, é um caso claro de transformação de um nó periférico em um hub global. Antes restrito a uma rede regional, o City passou a centralizar conexões entre clubes e mercados em diferentes continentes por meio do City Football Group, estrutura que integra times na Austrália, Índia, Espanha, Uruguai, Japão, China e Estados Unidos. Essa arquitetura de rede verticalizou o controle — conectando diretamente a elite do futebol europeu a mercados emergentes — e horizontalizou a influência, já que atletas, treinadores e executivos passaram a circular em um ecossistema interno. Na prática, o City reduziu o número de intermediários necessários para levar um jogador de um mercado secundário a um palco central, tornando-se um “atalho” sistêmico dentro do mapa global do futebol.
A Lei Beckham e o efeito conector na MLS (2007)
A criação da Designated Player Rule pela Major League Soccer em 2007, popularmente chamada de “Lei Beckham”, exemplifica a função de um conector de alto impacto em uma rede com barreiras estruturais. Ao permitir que cada clube contratasse até três jogadores acima do teto salarial, a liga abriu caminho para a chegada de David Beckham ao LA Galaxy. Mais do que um jogador, Beckham foi um catalisador de conexões: encurtou a distância entre a MLS e o futebol europeu, atraiu patrocinadores internacionais, abriu portas para transmissões globais e influenciou outros atletas de elite a migrarem para os EUA, como Thierry Henry, Zlatan Ibrahimović e, anos depois, Lionel Messi. O resultado foi uma aceleração abrupta da integração da MLS à rede global do futebol, tornando-a mais densa e com caminhos mais curtos entre nós antes isolados.
No fim, redes como as descritas acima não se formam ao acaso — elas se constroem, se defendem e, muitas vezes, se blindam. Em alguns casos, assumem a forma de ecossistemas abertos, onde pontes estratégicas conectam mundos antes distantes, gerando oportunidades e diversidade. Em outros, tornam-se “máfias”² — redes fechadas e autorreferentes, que concentram poder e controlam fluxos de informação.
Entender essa arquitetura, não apenas no futebol como em qualquer outra indústria, é mais do que uma curiosidade sociológica: é enxergar quem atua como hub de influência, quem funciona como ponte entre universos distintos e quem bloqueia ou direciona as conexões.
🔎 Indicações de conteúdo:
📕 O Ponto da Virada, obra Malcom Gladwell que explora como pequenas mudanças ou indivíduos-chave podem gerar grandes impactos em redes sociais.
📕 Fora de Série, outro de Malcom Gladwell que destaca fatores de sucesso, incluindo conexões e oportunidades inesperadas.
📕 A Liga, livro de Joshua Robinson que disseca a evolução da Premier League, redes globais de atletas, treinadores e investimentos.
📕 Linked, de Albert-László Barabasi, um compêndio sobre como redes complexas, hubs, pequenas distâncias e sistemas aparentemente dispersos estão conectados.
📽️ The Six Degrees, participação do próprio Kevin Bacon no TEDx contando a história por trás da teoria baseada em seu nome.
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Até a semana que vem,
Rodolpho Moreira (LinkedIn | X | Instagram)





